Troca de escola: como ajudar na adaptação dos filhos.

Troca de escola: como ajudar na adaptação dos filhos.

Alguns alunos estão ansiosos para fazer novos amigos, mas, em outros casos, os pais precisarão acompanhar com atenção as primeiras semanas de aula

Encantado com as quadras de futebol da nova escola, Felipe Gigante de Freitas, nove anos, mal pode esperar pelo primeiro dia de aula do quarto ano do Ensino Fundamental, na segunda-feira (17). O amplo espaço esportivo gritou aos olhos do menino quando visitou o colégio, ainda em 2019. Depois de cinco anos em uma mesma instituição, a família toda decidiu que era a hora de mudar.  

Problemas financeiros enfrentados pela antiga escola acenderam o sinal de alerta nos pais do menino, conta a empresária Cristina Gigante, mãe de Felipe. Aos poucos, pais e coleguinhas manifestaram que iriam trocar de endereço estudantil. Foi então que Cristina puxou o assunto em casa:

— Resolvemos dividir isso com ele. Conversamos e questionamos se ele queria trocar. Ele topa mudanças de uma forma legal e achou que seria um bom momento. 

Após a decisão, foi a hora de conhecer algumas instituições pré-selecionadas para conhecer suas infraestruturas e seus projetos pedagógicos. O guri participou de tudo: fez visitas, entrevistas e avaliação.  

— Ele ficou encantado, pois viu três campos de futebol. Embora seja um pouco na contramão do que as outras opções, listamos mais pontos positivos do que negativos. Quando a gente bateu o martelo, o Felipe levou minha mãe junto, porque ela participa muito da nossa rotina — diz a empresária. 

Como quem exibia um troféu, Felipe mostrou para todo mundo a lista de materiais escolares

da nova escola e já fala em levar a prima para conhecer o local. Está faceiro, especialmente pela possibilidade de fazer mais amigos. 

— A rede escolar para qual ele vai faz o primeiro dia de aula só para os alunos novos. Então, o Felipe diz que, quando todo mundo entrar, ele já vai ter amigos — comemora Cristina. 

Na segunda-feira, quando o ano letivo se inicia para a maioria dos estudantes , outros tantos Felipes devem encarar o desafio da nova escola. Com a mesma animação do menino ou não, é importante que os  alunos se preparem. Aos pais, cabe a tarefa de conversar, acompanhar e observar a criança/o adolescente.

Dialogue sempre, mas com calma

Manter um diálogo aberto com os filhos

e também com a escola é fundamental dentro desse contexto de mudança. A assessora pedagógica do Sindicato do Ensino Privado (Sinepe/RS), Naime Pigatto, recomenda: 

— Que os pais tenham calma, conversem bastante e retomem, com paciência, com seu filho que o processo de adaptação é lento e não acontece da noite para o dia. As regras básicas para os responsáveis são: aconchego, paciência e firmeza. 

Embora seja essencial, a conversa sobre as impressões das crianças ou adolescentes sobre o novo colégio devem esperar um pouco, diz a psicopedagoga Clarissa Candiota, especialista em aprendizagem humana. A medida serve para que o aluno tenha um tempo adequado para conhecer todos os colegas e professores podendo, dessa maneira, formar alguma opinião sobre eles. 

— Antes de 15 dias, é muito precoce dizer que gostou de tudo ou de nada — afirma. 

Passado o prazo de duas semanas, se o estudante sinalizar que não se adaptou à turma, a especialista sugere que a família busque auxílio junto à coordenação da instituição para avaliar um remanejo. Caso a criança/ adolescente reclame de um professor em específico, é importante que os pais tentem entender o porquê. 

— É preciso questionar: todos os colegas não gostam ou é só tu? Alguém foi aluno dele no ano passado e pode falar mais sobre ele? Quem sabe dá um prazo maior para esse professor? — indica Clarissa. 

Além dos pais

e do aluno, esse processo é completado com a participação da escola, que pode oferecer um tutor para acompanhar os novatos nos primeiros dias ou ainda outras atividades de integração. 

— A gama de atividades de convivência escolar tem como objetivo aproximar as famílias e os estudantes. Por meio de atividades de cultura e lazer.

, também é possível estabelecer novos vínculos, o que facilita o processo de ambientação — reforça a coordenadora pedagógica Analice Vacaro, especialista em Orientação Educacional e Supervisão Escolar. 

Como lidar com os contrariados

Mas, se ao contrário de Felipe, que está empolgadíssimo com a mudança, a criança não desejava a troca de colégio? Como os pais podem ajudar os filhos que foram obrigados à mudança (porque a família ficou sem dinheiro

para manter o mesmo padrão, porque se mudaram para muito longe, porque estavam insatisfeitos com a questão pedagógica etc.)? Como abordar essas questões? Como ajudar na adaptação a um novo grupo de colegas com os quais, talvez, a criança não queira ter contato? Como evitar que o filho seja visto como “o estranho” em uma turma que já está formada? Qual é o equilíbrio para ele também não ser visto como “o metido”?

Nesses casos, diz Clarissa, é fundamental que a família garanta que os espaços e o convívio sejam iguais: 

— Se tiveram que mudar de escola, deve-se valorizar os vínculos familiares e mostrar que o ambiente pode ter mudado, mas que eles estão juntos como mãe, pai e filho.  

No período de adaptação, destaca a psicopedagoga, também é importante que os familiares reforcem a presença, levando e buscando o filho: 

— Na hora da saída, é o momento em que a criança/o adolescente vai relatar o que houve de bom ou de ruim. 

É papel dos pais ressaltar que eles não perderão os amigos antigos, apenas terão a oportunidade de conhecer novos colegas e expandir seus horizontes. Mais uma vez: o diálogo tem suma importância nesse processo. Se a troca ocorreu por divergências entre a opinião da família e o projeto da escola, isso deve ser deixado claro para a criança.

“Amigos de verdade ficarão para sempre”

Foram dois anos de preparação para Bernardo de Carli Nobre, 12 anos, realizar o desejo de ingressar no Colégio Militar . Com a ajuda da mãe, Juliane de Carli, foi atrás de informações sobre a prova de ingresso na tradicional escola. O interesse pela instituição era tamanho que, em 2019, o menino foi com a família na festa junina

do Colégio Militar. Nesse mesmo ano, passou na prova e, em 2020, começou a estudar na instituição. 

Os laços com os antigos colegas seguem fortes, apesar da rotina diferente.  

— Eles se veem no clube, e algumas crianças frequentam a nossa casa. Quando ele passou na prova, dizia que “amigos de verdade ficarão para sempre” — orgulha-se a mãe. 

Sete dicas para pais e responsáveis

1) Nunca deixe a organização dos materiais e da rotina para a última hora. Uma semana antes, a criança/o adolescente já deve retomar o horário habitual de dormir. 

— Antes da volta às aulas, é interessante ir conversando com a criança sobre os novos amigos, os materiais escolares, as possibilidades de crescimento e a nova rotina que em breve será estabelecida — diz a orientadora educacional Luciana Modica, especialista em Psicopedagogia.

2) As novidades de uma escola diferente podem aumentar a ansiedade dos alunos. Pais devem ter atenção redobrada a possíveis “chantagens”, como uma dor de barriga inesperada às vésperas do primeiro dia de aula. 

3) Atenção ao material pedagógico. Naime Pigatto, assessora pedagógica Sindicato do Ensino Privado (Sinepe/RS), sugere que, pelo menos nas primeiras semanas de aula, o aluno leve para escola o material usado no ano anterior, como caderno e livros didáticos: 

— Às vezes, alguns dos assuntos tratados na escola anterior podem ser retomados ou o novo colégio pode estar mais avançado e vai requerer que o aluno se prepare melhor. 

4) Acompanhar é um verbo-chave. Como as escolas podem ter pequenas diferenças de trabalhos e conteúdos, Naime recomenda que os pais reforcem o acompanhamento dos filhos no período de adaptação para ver se ele está no mesmo nível dos colegas ou precisa resgatar algo.  Ao notar qualquer dificuldade, a família deve procurar a equipe pedagógica. 

— A escola precisa ser um espaço prazeroso, de alegria, descobertas, crescimento e expansão — comenta Luciana. 

5) Atenção nos primeiros dias. A orientadora educacional Luciana recomenda que os pais ou responsáveis acompanhem o filho até o horário de entrada na escola. 

— Lembrando sempre de deixar combinado quem irá buscá-lo ao término das aulas. Isso gera segurança e diminui processos ansiogênicos — explica. 

A orientadora também lembra que os pais devem demonstrar interesse pela vida escolar do filho, perguntando como foi seu dia, com quem interagiu e se ele estava feliz. 

6) Estimule as novas e as velhas amizades. Para Felipe, o menino lá do começo desta reportagem, a troca de escola significa “uma festa de aniversário muito maior e com mais amigos”.  Para sua mãe, Cristina, como a turma de amigos – e de pais – já está formada desde a creche, os laços devem se manter: 

— Não nos vemos só “de vez em quando”. Passamos as férias juntos, os pais vão a shows. 

Sem a convivência diária, o jeito é usar as horas livres para não perder o contato com os amigos antigos. 

— Os pais devem explicar que a criança/adolescente não vai “perder” os amigos da antiga escola. Ele terá, sim, a oportunidade de conhecer novos colegas e fazer novas amizades, ampliando o seu círculo social. A manutenção das “velhas” amizades pode continuar com o convívio em outras esferas — pontua Analice. 

7) Alunos que não passaram de ano e precisaram ir para uma outra escola que ofereça dependência precisam de atenção redobrada. 

— Essa criança/adolescente vai machucado. Não queria mudar de colégio, mas como não tinha dependência no antigo, precisa trocar. É um aluno que precisa de acompanhamento psicopedagógico para não se desmotivar — fala Clarissa.  

Redação com Gaucha ZH

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