Os inacreditáveis gastos de senadores e deputados. O banquete de 11 salários mínimos

Os inacreditáveis gastos de senadores e deputados. O banquete de 11 salários mínimos

As despesas dos senadores e deputados com restaurantes e aluguel de aviões continuam altas, mas já foram maiores. Levantamentos das prestações de contas dos últimos 10 anos mostram gastos extravagantes.

Um deputado gastou R$ 246 mil num prazo de apenas 15 dias com oito fretamentos de aeronaves no Amazonas, em 2014. Um senador torrou R$ 11 mil num jantar para parentes, amigos e políticos no restaurante Porcão, em Brasília, em 2013. Outro pagou R$ 6,8 mil numa refeição do restaurante Coco Bambu, em Brasília, em 2011. Tudo pago com dinheiro público. Os valores da reportagem foram atualizados pela inflação.

A transparência na divulgação dos gastos dos parlamentares aumentou nos últimos anos. A Câmara e o Senado divulgam as despesas dos deputados e senadores desde 2009. A partir de 2014, a Câmara passou a divulgar também as notas fiscais, o que permite conferir o detalhamento dos gastos. O Senado divulga passou a divulgar as notas a partir de julho do ano passado. A transparência barrou os gastos mais abusivos.

Mesmo sem os detalhes, algumas despesas impressionam pelo valor e pela quantidade. O senador Fernando Collor (PROS-AL), por exemplo, gastou um total de R$ 247 mil com 158 refeições no restaurante Boka Loka, de 2009 a março de 2013 – uma média de R$ 1,5 mil.  As maiores despesas aconteceram em junho de 2011 – R$ 2,2 mil e 2,3 mil. Registrado com o nome Kishimoto, o Boka Loka fica localizado no Paranoá, um bairro da periferia de Brasília.

Curiosamente, gastos ainda maiores do gabinete de Collor aconteceram em outro restaurante, o Minuta Buffet – R$ 2,8 mil em julho de 2012 e R$ 7,1 mil em 21 de dezembro de 2011, uma data próxima ao Natal. A assessoria de Collor não comentou o assunto, mas o blog apurou que as refeições teriam sido usufruídas pelos servidores do gabinete.

Banquete de 11 salários mínimos

Em 3 de março de 2013, o então senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB), ex-governador da Paraíba, recebeu familiares, amigos, correligionários e autoridades na churrascaria Porcão, no Setor de Clubes Sul, em Brasília. O banquete custou R$ 11 mil aos cofres públicos.

O valor, na época – R$ 7,5 mil –, equivalia a 11 salários mínimos. Na noite anterior, muitos dos convidados haviam participado da homenagem ao ex-senador e ex-governador Ronaldo Cunha Lima, pai de Cássio, no plenário do Senado. Familiares e amigos do senador vieram da Paraíba para os eventos.

Em dezembro de 2011, o senador Mozarildo Cavalcanti (RR) já havia financiado um banquete no valor de R$ 4,8 mil na churrascaria Porcão. Em novembro de 2010, torrou mais R$ 2,7 mil no restaurante Dom Francisco. No mesmo, restaurante, Ruben Figueiró (MS) pagou R$ 2,8 mil por uma refeição em agosto de 2014.

O senador Ciro Nogueira (PP-PI) tem um gosto mais refinado. Seu roteiro gastronômico inclui restaurantes do bairro nobre paulista Cerqueira César, como Nakka e Amadeus. Em Brasília, pagou R$ 2,8 mil por uma refeição no restaurante português A Bela Sintra. Os pratos mais procurados no restaurante eram bacalhau à portuguesa, camarão ao champanhe e javali. No mesmo mês, ele apresentou uma nota de R$ 3,2 mil do restaurante Dom Francisco.

Em dezembro de 2011, Nogueira gastou R$ 6,8 mil no restaurante Coco Bambu Frutos do Mar, no Setor de Clubes Sul. O valor era equivalente a oito salários mínimos na época. O restaurante é um dos preferidos dos parlamentares. Já serviu 1.269 refeições no valor total de R$ 240 mil a deputados e senadores.

Os maiores gastos por refeição

O que comem os parlamentares

A divulgação das notas fiscais pelo Senado reduziu os gastos, mas ainda há extravagâncias. No ano passado, Nogueira comeu um risoto de lagosta no Restaurante Lago, em Brasília, onde declarou despesa de R$ 287. Pagou do seu bolso um vinho português Dona Maria Amantis. Ele também não abandonou por completo o roteiro gastronômico da elite paulistana. No restaurante Amadeus, no Jardim Paulista, comeu uma moqueca Amadeus por R$ 236, em agosto.

Na Câmara, o mais “mão-aberta” no ano passado foi o deputado Vermelho (PSD-PR). Ele participou de missão oficial a Montevidéu, onde ficou três dias, em abril. Apresentou oito notas fiscais, mas a conta mais pesada foi na Parrilla Garcia. A nota tem registros de assado de novilho, rack de cordeiro e baby beef premium, além de um vinho Bouza Tanat, no valor total de R$ 559, mas ele cobrou “apenas” R$ 345 da Câmara.

O estreante Julian Lemos (PSL-PB) torrou R$ 242 numa picanha fatiada de 650 gramas no restaurante Belana, numa segunda-feira à noite, dia da semana em que não há sessões deliberativas na Câmara.

Também no ano passado, em março, o deputado Raul Henry (MDB-PE) esteve em reunião-jantar com outros parlamentares no restaurante Dom Francisco. Ele pagou R$ 254 por um bacalhau na brasa. Questionado pelo blog, o deputado reconheceu o erro. “Essa não é uma prática do meu mandato. Reconheço que os valores são altos e inadequados. Ficarei mais atento para que fatos como esses não se repitam”. O blog conferiu. Após o episódio, a sua maior despesa com alimentação foi de R$ 71.

Lideranças aderem aos banquetes

Somente a Liderança do PSDB na Câmara gastou R$ 47 mil (em valores nominais) com 31 refeições do Coco Bambu, entre 2013 e 2019 – uma média de R$ 1,5 mil. As maiores despesas foram feitas em 2013. Em fevereiro daquele ano, a nota fiscal chegou a R$ 4,3 mil – 6,5 salários mínimos. Em julho, a despesa ficou em R$ 3,6 mil. Em nove anos, a liderança tucana gastou R$ 372 mil em refeições.

A Liderança do PT teve despesas ainda mais elevadas com alimentação. Pelo menos seis notas fiscais ficaram em torno de R$ 6,5 mil, quase todas emitidas pelo C Park Restaurante. O maior valor foi de uma refeição em março de 2013 – R$ 7,3 mil – quase 11 salários mínimos na época. A liderança também comprou refeições no Bar do Alemão e Lake Side Apart Hotel. Ao todo, a liderança petista gastou R$ 411 mil em refeições.

Gastos nas alturas

Durante 15 dias, em outubro de 2014, o então deputado Sabino Castelo Branco (PTB-AM) visitou 10 cidades do Amazonas em dois aviões na Manaus Aerotáxi. Entre as cidades visitadas estavam Tabatinga, São Gabriel, Tefé e Parintins. O deputado realizou reuniões políticas e visitou obras, como sempre faz. Na volta, apresentou a nota fiscal à Câmara, no valor de R$ 184 mil. Em valores atualizados pela inflação, são R$ 246 mil.

Sabino fez mais três despesas elevadas em dezembro de 2013 e em março e dezembro de 2014, nos valores de R$ 121 mil, R$ 86 mil e R$ 112 mil, respectivamente. Porém, essas notas não estão disponíveis. Num período de 14 meses, ele gastou R$ 722 mil com fretamento de aeronaves.

Silas Câmara (Republicanos-AM) fretou um avião Caravan, da Aeronaves Táxi Aéreo, em 26 de janeiro de 2018, e visitou 18 cidades do Amazonas. A despesa ficou em R$ 78 mil. Em junho de 2014, gastou mais R$ 92 mil com a Parintins Táxi Aéreo. De 2014 a 2020, investiu R$ 770 mil (valor nominal) com aluguel de aeronaves. O deputado Eliene Lima fez uma despena de R$ 112 mil no fretamento de um avião em abril de 2014. A nota fiscal não está disponível.

Quem mais gastou com aluguel de aviões foi Átila Lins (PP-AM), num total de R$ 1,4 milhão (valor nominal).  Foram 128 locações do final de 2013 a 2020. Mas a maior despesa ficou em R$ 37 mil, feita em dezembro de 2014. Ele alugou uma aeronave Caravan Anfíbio para se deslocar até Tonantins (AM). A sua assessoria afirma que ele faz muitas locações por um motivo muito simples: o Amazonas não tem estradas. Para chegar a alguns municípios, ele levaria 15 dias de barco. Nessas localidades, ele visita obras e faz reuniões políticas.

O senador Ciro Nogueira (PP-PI) gastou R$ 734 mil (valores nominais) com aluguel de aviões, quase a totalidade com a Top Line Táci Aéreo. Mas a maior despesa foi feita com a Ceará Táxi

Aéreo – R$ 29 mil – em abril de 2013. Como deputado, foram mais R$ 127 mil. Mas não há nenhuma locação de valor elevado.

O maior gasto foi feito pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), no ano passado. Ele fretou um avião por R$ 69 mil para visitar suas bases eleitorais no Carnaval, em março. Pressionado por pedidos de informação que solicitavam as notas fiscais das despesas dos senadores, Alcolumbre determinou a quebra desse sigilo a partir de julho naquele ano.

Os maiores gastos por aluguel de avião

Lideranças justificam banquetes

A Liderança do PT afirmou ao blog que “o ritmo intenso dos trabalhos legislativos impôs à bancada a realização de reuniões frequentes, muitas vezes realizadas no horário das refeições a fim de melhor aproveitar o tempo dos parlamentares. Junto com a nota fiscal, segue a relação dos parlamentares que participaram da reunião de trabalho”.

Informou ainda que os recursos para essas refeições foram cedidos pelos vice-líderes – um a cada quatro deputados. Eles podem ceder à respectiva liderança o adicional previsto no Ato da Mesa que criou a Cota para o Exercício do Mandato, para atendimento das despesas de interesse coletivo da bancada. O PT contou com 88 e 70 deputados nas duas últimas legislaturas.

A liderança do PSDB disse que as notas fiscais referem-se a almoços servidos durante reuniões da bancada, que variou entre 33 e 50 deputados nas duas legislaturas em questão. “A maioria destes encontros ocorreu na sala de reuniões da Liderança do PSDB. Em todos, foram analisadas as matérias da pauta legislativa, com a presença de autoridades do Governo Federal, governadores e relatores de matérias em tramitação”.

Ressaltou ainda que os recursos utilizados são relativos aos valores que os vice-líderes recebem e destinam para gastos da Liderança, “não representando despesa adicional para a Câmara”.

Os campões de gastos foram procurados pelo blog, mas a maioria não respondeu aos questionamentos ou não foi encontrada. As totalizações de dados foram feitas com o uso de filtros do site Operação Política Supervisionada, que acessa e disponibiliza ao público os registros da Câmara e do Senado.

*Lúcio Vaz é jornalista e cobre a política em Brasília há 30 anos, revelando mordomias, privilégios, supersalários, desvios de recursos públicos e negociatas nos três poderes. Com passagens por O Globo, Folha de S. Paulo e Correio Braziliense, ganhou os prêmios Embratel e Latinoamericano de Jornalismo Investigativo ao descobrir a Máfia dos Sanguessugas. Autor dos livros “A Ética da Malandragem – no submundo do Congresso” e “Sanguessugas do Brasil”.

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